20.12.16

De Caracas a Roma: a história do Pe. Arturo Sosa

Em uma entrevista especial, o recém-nomeado Superior Geral da Companhia de Jesus falou sobre sua história e vivências

Após a eleição do novo Padre Geral da Companhia de Jesus, a equipe de Comunicação da 36ª CG (Congregação Geral) preparou uma entrevista em profundidade com o padre Arturo Sosa. Em uma longa conversa, o recém nomeado Superior Geral falou sobre sua história e vivências.

Sobre a sua eleição como Padre Geral

Como todos os eleitores, cheguei à Congregação perguntando-me quem seriam os melhores candidatos para o cargo de Padre Geral e, obviamente, não me via nessa lista. No primeiro dia demurmuratio1, comecei a procurar mais informação sobre os que eu considerava candidatos; no segundo dia, comecei a ouvir dizer que tinham feito perguntas sobre mim, ou que tinham perguntado por mim; no terceiro dia, comecei a preocupar-me, pois as conversas tornaram-se muito mais diretas e, no quarto, ainda mais. Nos três últimos dias, eu falei com 60 pessoas e muitos já me perguntavam pela minha saúde. Comecei a habituar-me à ideia, ainda que rezando para que os companheiros levassem a sério o que disse Santo Inácio, sobre não entrar na eleição com uma decisão fechada. No dia da eleição, ao ver os resultados, fui-me habituando à ideia, com uma intuição profunda de que tenho de confiar no bom juízo dos meus irmãos. Se eles me elegerem, terá sido por alguma razão e tentarei responder o melhor que puder.

Nesta eleição, parece-me que se valoriza a experiência de trabalho no nível local e internacional e não duvido que os últimos anos em Roma (Itália) tiveram algum peso na escolha. Mas, acima de tudo, entendo que eu sou um dos muitos jesuítas da Companhia de Jesus da América Latina que tentou colocar em prática o que as Congregações vêm dizendo nos últimos 40 anos. Entendo-o como uma confirmação da direção que a Companhia assumiu no tempo do padre Pedro Arrupe, Superior Geral entre 1965 e 1983. Entendo a eleição como uma confirmação de que há que seguir por aqui. Mas eu, pessoalmente, sou como muitos jesuítas da minha geração.

– Origem e Formação

Família

Nasci no curtíssimo período de democracia que houve na Venezuela na primeira metade do século XX, em 1948. O meu nascimento foi no dia 12 de novembro e, no dia 24 desse mês, houve um golpe de estado contra o primeiro presidente eleito democraticamente no meu país depois da independência. Os meus avós viveram em grande pobreza, mas o meu pai já pertence à geração que construiu o país.

Éramos uma família muito grande, na qual partilhavam espaço várias gerações. Para mim, foi muito importante estarmos tão juntos. As nossas casas não tinham muro, não havia distinção entre um jardim e outro, todos vivíamos conjuntamente. Éramos uma família muito católica, ainda que pouco expressiva na sua religiosidade. Nesse ambiente, aprendi a ver a realidade a partir de uma perspectiva que procura ver além do que nos é dado, em que as coisas não são necessariamente como estão. Cresci lutando sempre para ir um pouco mais além do que havia.

Nesse sentido, era uma família muito sensível à realidade e convencida da necessidade de estudar. Motivaram-me sempre muito a conhecer a realidade, a abrir-me ao mundo, a aprender idiomas. O meu pai era um homem muito inquieto, viajava muito, dentro e fora do país. Se naquele tempo havia 10 pessoas na Venezuela que liam a revistaTime, ele era uma delas. Era economista e advogado e esteve duas vezes no governo. Muitas vezes, convidava-me a acompanhá-lo em viagens dentro do país. Quando chegávamos a uma cidade que eu não conhecia, dizia-me sempre: “vamos pelacircunvalação”e dávamos a volta à cidade enquanto me explicava tudo o que íamos vendo. Eu vivi num constante abrir de olhos a uma realidade sempre maior, a ser desafiado a não ficar fechado naquilo que já conhecia.

O colégio

O outro ambiente onde se desenvolveu a minha infância foi o colégio Santo Inácio, em Caracas, capital da Venezuela. Entrei no colégio na pré-primária, quando tinha cinco anos, e aí passei 13 anos, até que terminei o secundário. O meu pai também tinha sido aluno nesse colégio. Nessa altura, nos colégios da Companhia havia muitos jesuítas, sobretudo jovens: magisteriantes2e irmãos. Para mim, era uma espécie de segunda casa. Segundo a minha mãe, a primeira, porque eu nunca estava em casa. Havia atividades desde segunda-feira e, por vezes, até ao domingo, dia em que havia missa no colégio. Para ser sincero, não me lembro da Química, nem da Matemática, mas lembro-me muito bem de ter criado grupos dentro do colégio, como a Congregação Mariana, a associação de estudantes…, tínhamos muita atividade desse tipo. Isso tem tudo a ver com o nascimento da minha vocação, ao ter experimentado a dimensão do sentido da vida quando nos entregamos aos outros.

I – Itinerário jesuíta

A minha vocação

Conheci os jesuítas no colégio e não tive nenhuma dúvida sobre a minha vocação à Companhia de Jesus. Nem sequer pensava como vocação ao sacerdócio, mas sim a ser jesuíta. Na verdade, tentando recordar-me, os jesuítas que mais me impressionaram foram os irmãos. Havia muitos irmãos na Província da Venezuela. Em concreto, no colégio, havia irmãos cozinheiros, o que arranjava o ônibus, o motorista… e havia irmãos professores. Na primária, muitos irmãos davam aulas, eram verdadeiros pedagogos. Os irmãos e os magisteriantes eram quem, verdadeiramente, nos acompanhavam, os padres nem víamos.

O meu interesse pela Companhia nasce nesse contexto, muito alimentado também por um olhar atento à situação do país. Pensava que podia fazer algo pelo país e que, para mim, o melhor lugar para o fazer era a Companhia. A minha geração era muito sensível à necessidade de continuar a construir o país. Vários, companheiros de grupos e da Congregação Mariana, tornaram-se médicos, engenheiros, outros foram para a Amazônia. Havia um sentimento de fundo, acreditávamos em um projeto de país, um projeto de sociedade.

Tempo do Concílio

O Concílio teve muita importância para mim, foi, sem dúvida, uma importante notícia. Acompanhamos como se fosse uma novela. A Congregação Mariana era o lugar onde a nossa reflexão vinculava o social com o espiritual e era aí que líamos os documentos que alimentaram a reflexão semanal dos nossos grupos durante os quatro anos que durou. Seguíamos o Concílio passo a passo.

E nesse tempo, houve a eleição do padre Pedro Arrupe, que foi outra lufada de ar fresco. Arrupe é eleito quando, no meu grupo, estávamos tentando decidir se entrávamos na Companhia. No colégio, era histórica a relação com as missões do Japão e Ahmedabad, na Índia. A eleição de um missionário no Japão foi muito simbólica e importante.

Já no noviciado, tínhamos o livro dos decretos da 31ª Congregação Geral (CG 31). Líamos e estudávamos esses decretos mais que ao padre Rodriguez3. E chegou a Carta do Rio4, coincidindo com a Conferência de Bispos da América Latina, em Medellín (Colômbia). Aconteceu algo de parecido com o Concílio, pois vivemos muito de perto toda a reflexão e dinâmica. Os documentos preparatórios dessa conferência foram transformados por uma força que vinha das bases, como um grito que se tinha de escutar, pois eram as próprias pessoas que diziam que tínhamos de mudar. Isso foi um grande impulso para a Igreja latino-americana e venezuelana.

Há que se dizer que a Igreja venezuelana era uma Igreja muito frágil e, por isso, o Concílio Vaticano II é tão importante para nós. A Igreja, na Venezuela, foi praticamente exterminada durante o século XIX. É uma sociedade muito mais laica que a mexicana ou a colombiana, com uma religiosidade muito menos expressiva. Além disso, foi atacada e expropriada pelos vários governos. Foi essa a razão que levou os jesuítas à Venezuela, foram chamados para trabalhar no seminário, para formar o clero de uma Igreja pobre e frágil, em que não havia vocações. Esse é o contexto em que se dá o Vaticano II, Rio, Medellín… Era o mesmo que dizer: a Igreja encontrou a sua força nas pessoas, encontrou a sua força na fé do povo e, dessa fé, temos que viver e, dessa fé, vamos poder gerar uma outra Igreja.

Magistério no Centro Gumilla

Nesse tempo, a Companhia de Jesus estava criando, na América Latina, os centros de investigação e ação social (CIAS), fazendo um esforço para que os jesuítas se formassem em Ciências Sociais. Muitos companheiros foram enviados para estudar Economia, Sociologia, Antropologia e começaram a formar-se grupos de investigação e de trabalho. O primeiro desses CIAS, na Venezuela, recebeu o nome de Centro Gumilla, um jesuíta que andou pelo Amazonas5e que escreveu grande quantidade de obras sobre Antropologia e Botânica. Esse grupo começou quando entrei na Companhia e coube aos noviços ajudar a montar a biblioteca. Eu tinha muita vontade de estudar Ciências Sociais e essa coincidência foi muito motivadora.

Uns anos depois, os provinciais pensaram na hipótese de possíveis destinos de magistério fora dos colégios e tive a sorte de ser enviado como magisteriante para o Centro Gumilla de Barquisimeto. Esse Centro ocupava-se, essencialmente, das cooperativas agrícolas nos bairros desse lugar. Outros companheiros foram para paróquias. A província estava empenhada em oferecer aos jovens possibilidades diferentes das mais tradicionais.

Teologia em Roma

Vim para Roma (Itália)fazendo das tripas coração, pois, na Venezuela, não era possível estudar Teologia. Queríamos estudar no Chile ou na América Central, pois, nesse tempo, eram lugares com um forte dinamismo religioso e político. Vendo agora as coisas, agradeço que me tenham obrigado a vir para Roma, pois, de outra forma, teria perdido a oportunidade de viver intensamente com jesuítas de 30 países diferentes. Nessa época, as pessoas e o ambiente estavam muito animados. Na Itália, eu criei facilmente laços com comunidades cristãs. Estes anos foram essenciais para a minha abertura a outras perspectivas de sociedade, de Igreja e de Companhia de Jesus.

Ainda assim, empenhámo-nos para que o 4º ano de Teologia fosse feito na Venezuela e o padre Pedro Arrupe – com a ajuda do padre McGarry – foi muito compreensivo. Após a fundação do Centro Gumilla, iniciou-se um conjunto de comunidades religiosas na Venezuela com a ideia de criar uma Faculdade de Teologia e, nesse momento, pude fazer um quarto anoad hocem formato de seminário intensivo.

III – Ciências Políticas

Universidade Central da Venezuela

Durante o último ano de Teologia, também trabalhávamos. Nesse tempo, tinha atividades mais pastorais. Vivíamos emCatia6– paróquia da Companhia em Caracas (Venezuela) – e trabalhava com outro companheiro em uma paróquia perto de El Valle, enquanto fazíamos os estudos de Teologia. Ao terminar esse ano, iniciei os estudos em Ciências Políticas na Universidade Central da Venezuela. Era a universidade mais importante do país, onde havia professores jesuítas e tínhamos a capelania universitária. Um ambiente muito importante para a Companhia, empenhada em marcar presença não só na Universidade Católica, mas também na Central onde a amplitude da discussão ideológica era maior.

Centro Gumilla

Destinaram-me, então, ao Centro Gumilla, em Caracas, onde comecei a trabalhar na revista SIC ao mesmo tempo em que fazia o doutoramento e dava aulas na universidade. Trabalhei nesse centro a partir de 1977. Quando o padre Ugalde foi nomeado provincial, nomearam-me diretor da revista e dediquei-me a esse trabalho durante 18 anos, até 1996. A revista era o órgão de comunicação do Centro Gumilla, com a missão de difundir o trabalho intelectual e de investigação que o Centro realizava. A revista chama-se SIC – que significaseem latim –, pois tinha nascido noSeminarioInterdiocesano de Caracas, muitos anos antes, e só mais tarde foi assumida pelo Centro Gumilla.

Nessa revista, de periodicidade mensal, tentávamos seguir a realidade social e, além disso, investir na formação socioeconômica de estudantes, grupos paroquiais, grupos populares. Tínhamos também uma ligação muito forte com a universidade, onde todos trabalhávamos, dando aulas ou estando envolvidos em algum grupo de investigação. Em Barquisimeto (Venezuela), promovíamos cooperativas de poupança e de crédito nos bairros e cooperativas agrícolas nas zonas rurais. Fazíamos uma reflexão comum muito interessante e, nesses anos, dediquei-me a escrever, ler, discutir e participar em cursos de formação.

IV – Liderança jesuíta

Época como Provincial

Em 1996, calhou-me em sorte ser provincial, quando já se via que as mudanças sociais iam ser fortes e que era preciso fortalecer a identidade da província. Tudo estava pronto para maior abertura às vocações venezuelanas dentro da província, não só as vocações jesuítas, mas também as de tantas pessoas já comprometidas com diversas instituições: a universidade, colégios, Fé e Alegria, paróquias. Era um momento muito interessante, pois já havia um corpo de pessoas conosco com um forte sentido de identidade em uma missão partilhada. Desse grupo, saiu a ideia de fazer um projeto apostólico em longo prazo, até 2020, que ainda está em execução. Foram anos muito intensos, uma reflexão muito interessante, em que a Cúria era somente um agente catalisador, como o qual se envolveu muita gente, leigos e jesuítas, e que durou vários anos até chegar às grandes orientações da província.

Chegamos a um momento em que conseguimos atingir um sentido de sujeito apostólico. Essa expressão, agora comum, nasceu naquele momento na Venezuela. Aí vivi em primeira pessoa a intuição de que a missão apostólica não nos pertence. Isso não é algo que eu tenha lido, é algo que experimentei ao encontrar-me com pessoas que vivem a missão com mais profundidade do que eu, em condições bem mais difíceis. Ao fim e ao cabo, nós temos liberdade para fazer muitas coisas, mas há muitos colaboradores que o fazem enquanto se encarregam de uma família e em situações bem complexas, sem diminuir, por causa disso, o seu grande compromisso com a missão. A raiz desse movimento começa com a necessidade de criar condições para fomentar a identidade partilhada. Assim como são necessários 20 anos para formar um jesuíta, com estudos, experiências, exercícios, etc., começamos a pensar em uma oferta de formação e experiências mais sistemática para os leigos. Daí surgiram novas formas de oferecer Exercícios Espirituais a todos os níveis sociais, ou o movimentoHuellas, um itinerário de formação para jovens. A ideia de fundo é que a experiência cristã é uma experiência de formação na fé, em que se junta o compromisso apostólico com a formação e com a vida espiritual e o conhecimento do país.

Universidade de Fronteira em Táchira

Táchira fica a 1000 km de Caracas, na fronteira com a Colômbia, e ali não havia possibilidade de fazer estudos universitários. Durante os anos que antecederam o Concílio, o bispo de Táchira intuiu que a forma de manter a gente jovem naquela zona era criar uma universidade. Os jesuítas ajudaram a fazer uma extensão da Universidade Católica Andrés Bello, em Táchira, sob a responsabilidade da diocese. Após 20 anos, ela tornou-se a Universidade Católica de Táchira.

Quando cheguei, a universidade estava mais ou menos consolidada, havendo a necessidade de dar novo impulso ao seu crescimento, tanto institucional como em relação à missão. Fizemos um novocampus, aumentou o número de estudantes, mas, sobretudo, colocamos muita ênfase em fomentar o contato com a realidade, a chave do nosso conceito de formação integral, que vai além do acadêmico.

Em Táchira, além da universidade, os jesuítas têm duas paróquias na zona da fronteira, uma emissora de rádio e cinco escolas Fé e Alegria. Do lado de lá da fronteira, na parte colombiana, também há instituições da Companhia de Jesus, especialmente escolas Fé e Alegria. Assim, surgiu a hipótese de trabalhar em um projeto interprovincial e regional, já que, nessa zona, a fronteira é completamente artificial. É verdade que há razões históricas, mas é a mesma cultura, a mesma gente e mesmo as famílias estão divididas entre os dois lados da fronteira. É a fronteira mais fluida entre a Venezuela e a Colômbia e aproveitamos esse forte sentido de identidade para criar uma zona apostólica que junta duas nações em vários tipos de trabalhos, próprios da Companhia, como a Educação (universitária, primária, secundária), o trabalho pastoral, o trabalho com refugiados. Fizemos um trabalho interessantíssimo porque os estudantes participavam nas atividades da pastoral e os centros educativos e o resto das obras tinham a universidade como centro de referência.

Experiências de articulação latino-americana

O tempo como provincial foi também um momento para entrar em contato com a Companhia de Jesus e a Igreja latino-americana. Destacaria três experiências muito fortes da construção conjunta nesses anos:

AConferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina(CPAL)nasceu quando eu era Provincial da Venezuela. A decisão de manter duas Assistências, mas criar uma única Conferência, já estava devidamente amadurecida. O arranque da CPAL foi uma aposta na articulação, contra o parecer de muita gente. Devemos muito à tenacidade do padre Francisco Ivern. A América Latina é muito diversa e grande, do México à Patagônia, vai uma distância significativa, e o Caribe não tem nada a ver com a Argentina. O nosso esforço implicava romper com uma tradição muito antiga em que a América Latina Norte e a Sul seguem caminhos separados. Mas pusemos mãos à obra e começaram a aparecer projetos comuns.

A outra foi o nascimento daAssociação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina (AUSJAL). Foi uma belíssima experiência participar na evolução da AUSJAL até se tornar efetivamente uma rede. Passar de um clube de amigos, onde os reitores reuniam-se uma vez por ano para a partilha de experiências, para uma organização na qual o que funciona é o corpo – o que chamamos de “grupos de homólogos” –, promovendo projetos sobre pobreza ou liderança juvenil e nos quais participam várias universidades. Assim, foi se criando a rede. Na minha experiência de universidade pequena, isolada, na fronteira, AUSJAL foi uma lufada de ar, abria possibilidades de experiências, intercâmbio de professores, de estudantes, ideias, projetos, que dão outra dimensão ao sentido de manter projetos frágeis, mas significativos.

A terceira experiência de articulação supra provincial foi o nascimento deFé e Alegriae a sua transformação em uma rede internacional. A minha relação com Fé e Alegria é muito antiga. Realmente tenho que dizer que comecei a conhecer os bairros por meio da iniciativa. No Colégio de San Ignacio, quando estava no 7º ano – quando surgiu Fé e Alegria –, já íamos aos bairros por mão desse movimento. No secundário, eu era um apaixonado por Biologia, os meus pais ofereceram-me um microscópio e eu ia com muita frequência ao bairro de Petares, ao colégio Madre Emília, um dos primeiros colégios de Fé e Alegria. Quando entrei na Companhia, a minha mãe perguntou-me: “E que você vai fazer com o microscópio, ofereça ao colégio Madre Emilia?”. O padre Vélaz, fundador de Fé e Alegria, era uma pessoa conhecida no círculo em que nos movíamos. Poder apoiar e ver o crescimento desse trabalho como rede internacional foi uma experiência muito gozosa. As redes são especialmente importantes nas fronteiras, onde os recursos são muito escassos. É um privilégio ver como a pertença a uma rede torna possível a existência de uma escola Fé e Alegria em zonas muito vulneráveis, com uma força que nunca teria por si mesma.

Experiência no governo central

Vivi a 32ª CG quando estudava em Roma. Nunca esquecerei o que foi escutar o próprio Arrupe contar aos estudantes do Gesù7a sua experiência nessa Congregação tão importante para a Companhia. A minha primeira vez como delegado foi na 33ª CG, para a qual fui eleito quando tinha somente 34 anos. Era o congregado mais novo. Foi uma vivência muito intensa, um momento complexo em que não era fácil acertar e vivemos o rápido consenso na eleição de Kolvenbach como uma experiência realmente inspiradora. O novo Padre Geral geriu magistralmente a transição até recuperar a confiança de outros setores da Igreja, sem que deixássemos de aprofundar as grandes intuições da 32ª CG. Participei também na 34ª CG, muito próximo do padre Michael Czerny, que tinha a responsabilidade de coordenar a comissão de justiça social. Aí conheci o padre Adolfo Nicolás, que era o secretário da Congregação.

A minha ligação ao governo central começa na 35ª CG, quando o padre Nicolás cria os assistentes não residentes (alguns chamavam-nos assistentes “voláteis” ou “voadores”…). Depois de ser eleito, disse-me em um corredor: “Quero que participe no governo da Companhia, mas não desde aqui”. Nomearam eu e o padre Mark Rotsaert, e foi uma experiência interessante, pois participávamos no conselho geral sem viver em Roma. Essencialmente, vínhamos nos tempos fortes, 3 vezes por ano, e trazíamos um olhar e uma voz que rompia com o cotidiano. Foi uma etapa esgotante, mas aprendi muito, pois exigia manter contato com a Companhia de Jesus universal, no nível de governo geral, não em contexto deliberativo, como nas Congregações.

Uns anos depois, o assistente enviou-me um e-mail perguntando-me “como você vê a possibilidade de trabalhar como responsável das casas internacionais de Roma?” e eu retorqui com a resposta clássica de um jesuíta: “Entrei na Companhia para fazer o que me dizem, não o que quero, mas parece-me que…” e expliquei todos os argumentos para o não. Honestamente, estava muito tranquilo porque pensava que as casas internacionais em Roma estavam fora das minhas competências e, além disso, tinha sido muito crítico delas. Umas semanas depois, chegou a minha nomeação. Não me perguntaram mais nada. O provincial chamou-me e disse-me “tenho uma notícia que nem consigo lhe dar, nem consigo falar, pois não sei o que vamos fazer com a universidade se você for embora”. E assim acabei por vir a Roma uma segunda vez.

Devo dizer que a experiência destes dois anos aqui tem sido muito interessante. É diferente ser estudante na Gregoriana, com 28 anos, e vir aos 60 para ser responsável por 400 jesuítas que trabalham nas casas internacionais. Esta nova perspectiva implica conhecer melhor as pessoas e as dinâmicas das instituições. Tenho que reconhecer os grandes esforços que se fizeram nos anos anteriores em renovar estas estruturas. Agora, o grande sonho é que se constitua o consórcio universitário entre as três instituições clássicas da Companhia de Jesus em Roma.

Durante os últimos dois anos, tive ocasião de encontrar o Papa Francisco quatro ou cinco vezes, sempre por questões relacionadas com as casas internacionais da Companhia em Roma. A relação tem sido sempre muito gentil e de grande empatia, com a sintonia própria deste Papa que nasce da simpatia. Creio que a mensagem do Papa Francisco nestes últimos anos tem sido uma forma de entusiasmar a Companhia a prosseguir no caminho feito – aqui e em muitos outros lugares. Assim como na 35ª CG foi essencial o discurso de Bento XVI, neste momento, o Pontífice confirma-nos que estamos na direção própria da missão da Companhia. Anima-nos mesmo a ir além, como se dissesse “ainda estão muito longe de fazer tudo aquilo que podem”. Francisco, com o seu exemplo e conhecimento da Companhia de Jesus, confirma-nos continuamente que estamos no caminho certo.

V – E agora… com Espírito e coração

Olhando o futuro

As pessoas perguntam-me “como está? ” e eu respondo sempre que estou tranquilo. Estou convencido de que não há Companhia se não é “de Jesus”. E isso tem duas vertentes: por um lado, não haverá Companhia se não houver união íntima com o Senhor. Por outro lado, se é verdadeiramente d’Ele, confiamos que nos ajudará a cuidar dela. Creio que esta centralidade é uma das nossas chaves: se a pessoa de Jesus Cristo não está diante de nós, dentro de nós e conosco todos os dias, a Companhia não tem razão de ser.

Uma consequência desta intuição é a certeza de que se trata da “sua” missão, a missão que partilhamos, entre nós e com todos os outros com quem vamos, é a missão de Jesus. Por isso, há dois temas que me parecem fundamentais e que abordei na homilia da Eucaristia de Ação de Graças: a colaboração e a interculturalidade.

A ênfase na colaboração não é uma consequência de que sozinhos não podemos, é que não queremos. A Companhia de Jesus não tem sentido sem a colaboração com outros. Nisso somos chamados a uma grande conversão, pois, em muitos lugares, ainda vivemos na nostalgia de quando fazíamos tudo e, agora, não temos outro remédio senão partilhar a missão. Acredito, profundamente, que é ao contrário, que a nossa vida é colaborar com outros.

O outro é a multiculturalidade/interculturalidade, pois assim é o Evangelho. O Evangelho é um apelo à conversão de todas as culturas para protegê-las como culturas e levá-las a Deus. O verdadeiro rosto de Deus é multicolor, multicultural e multivariado. Deus não é um Deus homogêneo. Pelo contrário. A criação mostra-nos, em todo o lado, a diversidade, como se complementam umas coisas com outras. Se a Companhia conseguir ser imagem disso, estará ela mesma sendo expressão do rosto de Deus.

Creio que, depois do Concílio, a Companhia conseguiu essa variedade cultural. Conseguimos ganhar raízes em todas as partes do mundo e de todas surgem vocações autênticas. Podemos encontrar jesuítas, verdadeiros jesuítas, em qualquer lado, de qualquer cor, em qualquer atividade. Creio que há aqui um sinal da Igreja para o mundo. Na nossa diversidade, une-nos o vínculo com Jesus e o Evangelho e disso surge a criatividade da Companhia de Jesus e das pessoas com quem partilhamos a missão. É incrível como são capazes de dar um toque próprio à mesma mensagem, que é mensagem para todos.

Conclusão

Tenho grande esperança de que esta congregação ajude a Companhia de Jesus e o Geral recém-eleito a ver com clareza para onde devemos caminhar e como. A Companhia de Jesus não tem muitas dúvidas sobre qual é a sua missão, pois aquilo que a 32ª CG formulou e reformularam as congregações seguintes já se fez vida entre nós. Podemos dizer que já sabemos o que podemos oferecer à Igreja. Agora, o grande desafio da Companhia de Jesus é como nos organizarmos para sermos eficazes nessa missão. Por isso, introduz o tema da profundidade intelectual, porque não é uma questão de copiar modelos, mas sim de criar. Criar significa entender. A criação é um processo intelectual muito árduo. Entender o que se passa no mundo de hoje, na Igreja de hoje, poder entender a fé. Isso é o que nos pode dar as chaves para centrar a missão naquilo que já percebemos ser um amplo consenso e encontrar os modos mais eficazes para o realizar.

A minha impressão é que a Companhia está bem viva e que há muitos processos em andamento. Temos de centrar-nos naquilo que fazemos, temos de confiar, sabendo que podemos plantar, mas não sabemos como crescerão as sementes. Isso sabe-o Deus. Ele é quem trabalha, o essencial é ajudar, não estorvar. A nossa paixão nasce da certeza de que acompanhamos as pessoas com a garantia de que Deus está conosco, precedendo-nos!

NOTAS
1Amurmuratio– latim para “murmurações” – é a etapa prévia na Congregação à eleição do Padre Geral, onde se dedica quatro dias à oração pessoal e à conversa dois a dois entre os eleitores, para que cada eleitor vá dando passos no discernimento e no conhecimento dos possíveis candidatos.
2Um magisteriante é um jovem jesuíta que está em uma fase específica da formação, entregando-se a alguma atividade apostólica em alguma obra da Companhia, neste caso em um colégio. A essa etapa de formação chamamos “Magistério”.

³ Autor de um livro clássico utilizado durante séculos na formação dos jesuítas.

4Meses antes da Conferência de Bispos em Medellín (Colômbia), os Provinciais jesuítas da América Latina, reunidos com o Padre Arrupe, dirigem à Companhia uma carta, chamada “Carta do Rio” (maio 1968), que se tornará chave para o papel e empenho da Companhia na defesa da justiça social na América Latina.

5O padre Gumilla, missionário jesuíta do século XVII, fundador de várias povoações nos rios Apure, Meta e Orinoco, era, sobretudo, um homem de ação e um observador perspicaz da natureza e antropologia. Morreu em um lugar desconhecido dos Llanos venezuelanos no dia 16 de julho de 1750, depois de 35 anos de trabalho missionário.

6AsFlores de Catiaé um bairro popular de Caracas onde a Companhia de Jesus tem oInstituto Técnico deJesús Obrero, Instituto universitário Fe y Alegriae a ParóquiaJesús Obrero, onde reside a comunidade jesuíta na qual viveu o Pe. Geral.

7Nome da comunidade de jesuítas que fazem o primeiro ciclo de teologia em Roma. A comunidade é adjacente à Igreja del Gesù.

Tradução de Espanhol: Nelson Faria,SJ

Revisão: Elias Couto e Pe. António Valério,SJ

Edição brasileira: Núcleo de Comunicação BRA

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