Justiça socioambiental: o atual olhar dos jesuítas para os povos indígenas
Confira algumas ações da missão indigenista da RJSA em diversos estados brasileiros
Neste mês em que também se voltam os olhares e as discussões sobre os povos originários, por conta do dia 19 de abril, a Província dos Jesuítas do Brasil, da qual faz parte o Colégio Antônio Vieira, publicou um texto que traz um pouco da atuação da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (RJSA), considerando os desafios atuais. Ações, que não se limitam à data especial, demonstram o atual compromisso dos jesuítas de buscar atuar para e com os demais, pautados na reconciliação e na justiça socioambiental.
O coordenador e Superior do Núcleo Apostólico Jesuíta na Bahia, padre Jean Fábio Santana SJ, também integra a RJSA. Confira agora um pouco mais da atuação da RJSA em sua missão indigenista:
Presença que caminha junto: a Missão Indigenista dos jesuítas do Brasil hoje
Abril é o mês em que o Brasil dirige o olhar, ainda que por uma janela estreita, para os povos que já estavam aqui muito antes de qualquer mapa. Para a Companhia de Jesus, no entanto, esse olhar não tem data marcada. Ele é permanente, encarnado e se faz presente em territórios entre Roraima e Mato Grosso, entre a fronteira do Acre com o Peru e as periferias urbanas de Cuiabá (MT) e Belo Horizonte (MG).
Os membros da Frente Apostólica Indigenista da Província dos Jesuítas do Brasil, formada por jesuítas de diferentes partes do mundo destinados a trabalhar ao lado dos povos indígenas brasileiros, integram a Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental (RJSA). Coordenada pelo Pe. Vanildo Pereira da Silva Filho, SJ, a missão atua em parceria central com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e se orienta por um princípio claro: não falar pelos povos indígenas, mas caminhar com eles.
Quem está onde
A missão está presente em seis estados brasileiros, por meio de dez frentes de atuação vinculadas a diferentes Núcleos Apostólicos da Província. No Amazonas, o Pe. Vanildo coordena a assessoria jurídica do Cimi Regional Norte I, cobrindo todos os povos da região, enquanto o Pe. Juan Fernando López Pérez, SJ, atua na Equipe Itinerante com os ribeirinhos, os indígenas e as populações marginalizadas urbanas, com atenção especial aos povos em situação de isolamento na Pan-Amazônia.
No Pará, o trabalho acontece na região do Alto Rio Guamá, junto ao povo Tembé. Em Roraima, o Pe. Francisco Almenar Burriel, SJ, vive e missiona na região Serra da Lua com os povos Wapichana e Macuxi. No Mato Grosso, dois jesuítas atuam em frentes distintas: o Pe. Aloir Pacini, SJ, acompanha indígenas urbanos em Cuiabá, especialmente Warao e Chiquitano, enquanto o Pe. Rafael Leria Ortega, SJ, está inserido na região do Juruena, junto ao povo Rikbaktsá. No Acre, Pe. Urbano Rodolfo Mueller, SJ, e Ir. Arquelino Xavier dos Santos, SJ, compartilham a missão em Assis Brasil, na fronteira com o Peru, junto aos povos Machineri e Jaminawa. Belo Horizonte conta com o escolástico Alef Braga Pinto, SJ, atuando na Pastoral Indigenista do Cimi local.
O que orienta essa presença
A Frente Apostólica Indigenista possui três modos de proceder que orientam a missão: inserção, reflexão e incidência.
“Antes de qualquer ação, vem a escuta. Antes de qualquer palavra, vem a presença”.
A inserção implica testemunhar a boa nova do Evangelho, solidário com os modos de vida dos povos indígenas, por meio do diálogo inter-cultural e religioso, com despojamento e abertura ao aprendizado mútuo. A reflexão resultante da vivência concreta no chão dos territórios indígenas, alimenta a produção de conhecimento crítico e a definição de novas estratégias para assegurar o bem viver.
A incidência, por sua vez, se traduz na defesa de políticas públicas diferenciadas, em colaboração com diversas redes de apoio: Serviço Jesuíta Pan-Amazônico (Sjpam), Rede de Solidariedade do Apostolado Indígena (RSAI), Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e do Caribe (Cpal), Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e assessoria jurídica e apoio às mobilizações dos próprios povos.
Cotidianamente a Frente Apostólica Indigenista é interpelada por assuntos relacionados a terra e território, educação e saúde diferenciada, incidência política, assistência religiosa, assessoria jurídica, espiritualidades, juventude e fortalecimento das mulheres indígenas.
Os desafios que a missão enfrenta
Entre os desafios urgentes da missão, podemos destacar: a precariedade do atendimento de saúde diferenciada aos povos indígenas, a expropriação de seus territórios tradicionais, a ameaça e violência sobre os indígenas nas aldeias, e a necessidade de superar, de forma permanente e consciente, qualquer traço de postura colonialista na própria prática missionária.
“A descolonização não é ponto de chegada, mas caminho diário”.
A formação e destinação de novos missionários jesuítas dispostos a assumir essa missão estratégica é apontada como uma das prioridades mais urgentes para a continuidade do trabalho.
Uma missão que vem de longe e aponta para o futuro
A presença jesuíta junto aos povos indígenas no Brasil tem raízes no século XVII. Mas a forma como se dá hoje é radicalmente diferente daquela do período colonial. Desde o fechamento do internato de Utiariti, na década de 1960, e da fundação do Cimi em 1972, com participação decisiva de jesuítas, a missão aprendeu a escutar antes de anunciar, a acompanhar antes de propor, a defender antes de catequizar.
Essa herança crítica e convertida é o que anima hoje a Frente Apostólica Indigenista da BRA. Segundo a orientação pastoral assumida pela Frente, o seu objetivo principal é testemunhar e anunciar profeticamente a Boa Nova do Reino a serviço da vida dos povos indígenas, em espírito de sinodalidade, para a construção de um mundo igualitário, democrático e pluricultural em vista do bem-viver.
A Missão Indigenista é parte viva da RJSA, como uma de suas expressões mais antigas e mais radicais de fidelidade ao Evangelho nas fronteiras.
Fonte: Jesuítas Brasil
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