ARTIGO – Santo Inácio de Loyola e a Mística da Amizade, por Pe. Tárcio Santos, SJ
Nesta semana de celebrações a Inácio de Loyola pela proximidade do dia 31, dedicado ao santo fundador da Companhia de Jesus, o padre Tárcio Santos, SJ, assistente espiritual do Colégio Antônio Vieira, apresenta um artigo que enfatiza a importância da valorização da amizade para os propósitos jesuítas – desde a própria origem da Companhia, unindo ainda mais Inácio e seus amigos Francisco Xavier e Pedro Fabro, em prol da missão de compartilhar a fé cristã. Inspirado na vida e ensinamentos de Loyola, o texto ainda promove reflexões sob à luz da espiritualidade inaciana no mês em que também se comemora o Dia do Amigo, no último dia 20.

Santo Inácio de Loyola e a Mística da Amizade
Por Pe. Tárcio Santos, SJ, assistente espiritual do Colégio Antônio Vieira
“Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual para o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e todos os sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim.”
(Guimaraes Rosa. Grande Sertão Veredas)
Fundador da Companhia de Jesus, peregrino, místico, mestre espiritual: muitos são os títulos pelos quais Santo Inácio de Loyola é reconhecido. Entre eles, porém, há um que facilmente passa despercebido, embora ajude a compreender profundamente sua vida e sua missão: o de amigo. Vivendo a mística da amizade, Inácio soube reunir pessoas, cultivar vínculos duradouros e caminhar com homens e mulheres que, como ele, desejavam buscar e servir ao Deus que se faz amigo.
É possível viver sozinho. Muitas pessoas experimentam isso diariamente. Em muitos casos, essa é uma escolha que proporciona autonomia, liberdade e bem-estar, no entanto, também existem pessoas que, mesmo vivendo sozinhas ou acompanhadas, convivem com um profundo sentimento de solidão. Pessoas que, mesmo cercadas por outros, conectadas às variadas redes sociais e participando de inúmeros grupos, não é raro sentir que falta alguém com quem se possa conversar sem máscaras, sem filtros, compartilhar as alegrias, os medos e as dúvidas mais profundas. Podemos viver assim, mas não precisamos. A fé cristã é o anúncio de que Deus não quis permanecer distante da humanidade. Em Jesus Cristo, Ele se aproximou de nós e escolheu chamar-nos de amigos.
No Evangelho de São João em seu discurso de despedida na última Ceia, Jesus afirma um novo modo de relação com esse Deus que se se faz próximo de nós: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer” (Jo 15,15).
Jesus não elimina o respeito devido ao Senhor, mas transforma a relação. O discípulo deixa de ser apenas alguém que satisfaz um pedido para tornar-se alguém que conhece o coração de Cristo, alguém que sabe ouvir. O Deus conosco, Emanuel, não guarda distância; aproxima-se, partilha sua vida, revela o projeto do Pai e convida seus discípulos a viverem na confiança. Em Jesus, Deus escolhe fazer-se amigo.

DEUS: PRESENÇA AMIGA
O então cardeal Joseph Ratzinger, na homilia da missa no dia 18 de abril de 2005, ao comentar esse trecho do Evangelho, expressa a profundidade dessa amizade, afirmando que: “Muitas vezes sentimos que somos como é verdade unicamente servos inúteis (cf. Lc 17, 10). E, não obstante, o Senhor chama-nos amigos, torna-nos seus amigos, oferece-nos a sua amizade”.
Com essas palavras, o Papa destaca que a amizade oferecida por Cristo nasce da confiança e da comunicação de si mesmo, é dom. É Jesus que nos abre o coração do Pai, nos dá a conhecer o seu rosto e faz com que não existam mais segredos entre a humanidade e a divindade; n’Ele o mistério de Deus se aproxima de nós e faz com que participemos de sua vida. Deus não deseja apenas ser conhecido como uma ideia ou seguido como uma obrigação, mas encontrado como uma presença amiga.
Essa amizade não é uma ideia abstrata. Por isso, Santo Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais, ao apresentar o momento do colóquio expressa que esse momento é uma conversa íntima, por isso ele escreve que: “O colóquio faz-se, propriamente, falando, assim como um amigo fala a outro ” (EE, 54).
Rezar, para Inácio, não é simplesmente repetir palavras. É conversar com Deus com sinceridade, levando a Ele aquilo que realmente ocupa o coração. Podemos falar de nossos sonhos, inseguranças, desafios, relações, responsabilidades e escolhas. A oração torna-se um encontro, porque Deus primeiro quis nos encontrar. Se Cristo nos chama de amigos, a resposta humana é aprender também a dirigir-se a Ele com confiança, como quem conversa com alguém que se dispõe a nos escutar em nossa inteireza.
AMIZADE CRISTÃ
Santo Inácio fez da amizade um modo de viver. Os Exercícios Espirituais nascem de sua amizade com o Senhor. A Companhia de Jesus é fruto de uma amizade que no centro de sua experiência está a relação dos Primeiros Companheiros com o Senhor. Por isso, os jesuítas começaram a ser identificados como “Amigos no Senhor”. A missão que assumiram não nasceu apenas de uma organização social, mas de vínculos pessoais construídos na fé. Ao longo de sua vida, Inácio manteve viva essa amizade por meio de inúmeras cartas, acompanhando, não apenas os jesuítas, mas também muitas outras pessoas espalhadas pelo mundo com atenção, carinho e profundo sentido de comunhão.

Para o santo de Loyola, a amizade verdadeira conduz necessariamente ao amor concreto; é fecunda e nunca se fecha em si mesma. Em uma carta dirigida aos padres e irmãos de Pádua, em 7 de agosto de 1547, escreveu: “A amizade com os pobres nos torna amigos do Rei Eterno.” Não se trata apenas de um convite à solidariedade, mas da indicação de um caminho espiritual. Os pobres não são apenas destinatários de nossa caridade; são amigos que Deus coloca em nosso caminho e, por meio deles, somos conduzidos a uma amizade mais profunda com o próprio Cristo. A proximidade, a escuta e a partilha da vida com os pobres transformam o coração, purificam nossos afetos e nos fazem participar do modo de amar de Jesus. Assim, a amizade cristã revela sua verdade: ao abrir-nos aos mais vulneráveis, abre-nos também ao Rei Eterno.
Na vida cotidiana, isso significa: perceber quem está sozinho, acolher quem sofre exclusão, oferecer presença a quem precisa, dedicar tempo aos que necessitam de atenção e reconhecer a dignidade de cada pessoa, mas também dedicar tempo e atenção aos nossos amigos e amigas, aquelas pessoas com as quais não precisamos de nos armar para falar. Como disse o Papa Francisco na exortação apostólica Christus Vivit: “ter amigos ensina-nos a abrir-nos, a compreender a cuidar dos outros, a sair da nossa comodidade e isolamento, a partilhar a vida”. (n. 151)
A cultura atual valoriza a autonomia, a independência e o sucesso individual, que podem ajudar no crescimento pessoal. Mas, muitas vezes, as pessoas carregam seus medos e sofrimentos em silêncio, como se não houvesse espaço para partilhar a própria fragilidade. Podemos viver sozinhos, mas não precisamos. O Deus que vem ao nosso encontro, faz-se nosso amigo e nos convida a construir amizades verdadeiras.

Viver a mística da amizade, assim como Santo Inácio a viveu, nos desarma, nos ajuda a deixar de ver as pessoas como concorrentes ou simples conhecidas e nos ajuda a reconhecê-las como companheiras de caminhada, com quem podemos partilhar a vida e crescer. Quando é verdadeira a amizade nos reúne, nos proporciona encontros, ela nunca nos fecha em grupos exclusivos ou sectários, ao contrário, abre-nos a novas amizades, alarga nosso coração e nos impulsiona sempre à prática do bem, fazendo de nossa vida um espaço de comunhão, serviço e fraternidade.
- Padre Tárcio Santos, SJ, é graduado em Filosofia e Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), de Minas Gerais. Possui Especialização em Organização do Trabalho Pedagógico (orientação educacional, supervisão e gestão escolar), pelo Centro Universitário Internacional Uninter, e também em Administração de Empresas, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Após missão em diversas unidades educativas jesuítas em Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, o padre é atualmente assistente espiritual no Colégio Antônio Vieira, em Salvador (BA).
Imagens: Valter Pontes, Magis Brasil,
Rádio Amar e Servir e banco de imagens.
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