ARTIGO – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, por Joelma Serra
A origem e a importância do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, a ser celebrado neste sábado (25), são destacadas neste artigo da professora Joelma Serra, integrante do Comitê para Educação Étnico-Racial e de Gênero do Colégio Antônio Vieira. A data convida a todos a refletir e agir em relação a questões ainda lamentavelmente tão presentes na sociedade, como racismo, discriminação e violência contra a mulher, valorizando iniciativas e movimentos históricos que fizeram e fazem a diferença na busca por uma transformação social. Confira!
Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
Por Joelma Serra
A mulher negra sempre esteve em movimento. Não existe sociedade sem “cultura preta”, seja na ancestralidade, na estética, na religiosidade, na culinária… Dessa forma, a cultura afro cresce na coletividade. Em 1989, Kimberlé Crenshaw, uma norte-americana negra defensora dos direitos civis, cria o termo interseccionalidade para discutir diferentes formas de discriminação e opressão (racismo, sexismo, desigualdade…), questões sociais que se cruzam e interagem simultaneamente, afetando de uma única forma a mulher negra, evidenciando que o assunto sempre esteve em pauta.

Em 1992, um grupo em torno de 300 mulheres negras de diferentes países (32) se reuniu, na República Dominicana, para discutir e instituir o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. O intuito foi reivindicar políticas públicas para o enfrentamento do racismo e sexismo. Anualmente, esta data é lembrada no dia 25 de julho em todo o mundo com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil estava presente e se articulou!
A partir deste encontro, o Brasil instituiu, nacionalmente, o “Dia de Tereza Benguela” para celebrar e evidenciar a luta da líder quilombola do século XVIII que comandou o território do “Quilombo de Quariterê”, nome tupi que é um símbolo histórico de resistência negra e indígena no Brasil. Situado em Mato Grosso, na região do Vale do Guaporé próximo à Bolívia, o quilombo foi dizimado em 1770 por Luiz Pinto, que invade e encerra o movimento neste local, mas não apaga a luta e a resistência dos movimentos negros. A Organização das Nações Unidas (ONU), após o encontro de 1992, instituiu oficialmente a homenagem a Tereza de Benguela, em 2 de julho de 2014, por meio da Lei 12.987/2014, como resultado da participação efetiva do Brasil no encontro, realizado na República Dominicana.
Vozes em defesa dos direitos da mulher no Brasil ecoam com ativismo em torno do Movimento Negro Unificado (MNU), em que temos à frente Lélia Gonzalez, com o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras no Brasil, situado no Rio de Janeiro, e o seu Coletivo Nzinga – organização antirracista brasileira também pioneira na criação de termos singulares, como “pretuguês” e “africanidade” – que aborda temas importantes que dialogam com a célebre fala de Lélia Gonzalez que afirma: “A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora”.
JULHO DAS PRETAS
A Bahia também se articulou, após ao Movimento na República Dominicana, com o “Julho das Pretas”, criado no ano de 2013, por meio do Instituto Odara – Instituto das Mulheres Negras. A agenda tem como pauta permanente o fortalecimento das ações afirmativas, políticas coletivas e autônomas de mulheres negras para acabar com a desigualdade de raça e gênero, assim como articulação do empoderamento coletivos de mulheres negras.

Anualmente, o coletivo celebra o dia 25 de julho, com concentração na Praça Piedade, em Salvador, para a Marcha de Reparação e Bem Viver, já na 14º edição – uma mobilização com microfones abertos para voz e vez das mulheres. O Comitê para a Educação Étnico-racial e de Gênero do Colégio Antônio Vieira busca atender às propostas do movimento, pontuando também a importância de dialogarmos com a sociedade para um engajamento que não se restrinja às mulheres negras. Uma sociedade contemporânea que ainda precisa evoluir e se movimentar para o enfrentamento de situações como a interseccionalidade, questões que juntas ainda atingem de uma única vez a mulher, seja ela negra, latino, americana e ou caribenha.
- A educadora Joelma Serra é graduada em Arte Educação, com especialização em Metodologia do Ensino das Artes e, também, em Literatura Infantil e Educação. Atua como professora de Arte e articuladora do Departamento de Arte e Música do Colégio Antônio Vieira, onde integra o Comitê para Educação Étnico-Racial e de Gênero. É também integrante do Baobá, coletivo de estudos antirracistas, do Núcleo de Filosofia Pan-anficanista (Afroffib) e do Grupo Gestor do Fórum Baiana de Educação Infantil (GGFBEI0.
Fotos: Secom/CAV.
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