ARTIGO – Quando Deus se esconde nas coisas pequenas: é tempo de caminhar com Loyola, por William Tavares
Nesta semana especial de homenagens a Santo Inácio de Loyola, o pastoralista William Tavares divulga um artigo especial com reflexões para o dia a dia, a partir das vivências e ensinamentos do santo fundador da Companhia de Jesus – ordem religiosa da qual o Colégio Antônio Vieira faz parte. Confira!
Quando Deus se esconde nas coisas pequenas: é tempo de caminhar com Inácio de Loyola
Por William Tavares, teólogo, poeta e pastoralista no Colégio Antônio Vieira
Na oração da manhã, rezei o tempo. Estamos num mês de graça, julho é o mês inaciano. Dias de muito “corre” na rede de educação que trabalho… Essa época sempre me provoca o pensamento. Nós aqui recebemos o mês como um tempo de afinar os ouvidos. Há um convite escondido nesses dias, quase imperceptível, para desacelerar o coração e permitir que a alma volte a respirar. Talvez seja isso que Santo Inácio chamaria de graça: não um acontecimento extraordinário, mas a capacidade de perceber o extraordinário escondido no comum.
Por vez, sinto que vivemos como quem atravessa uma floresta olhando apenas para o relógio. Corremos tanto que esquecemos de conversar com as árvores. Passamos pelas pessoas sem enxergar os universos que carregam nos olhos. Respondemos mensagens em segundos, mas demoramos anos para responder às perguntas que realmente importam.
E as perguntas nos acompanham: Quem estou me tornando? O que realmente desejo? Para onde caminha meu coração quando ninguém está olhando?… São interrogações perigosas, não porque tragam respostas difíceis, mas porque desmontam as respostas fáceis.
Aprendi com os jesuítas que Inácio de Loyola descobriu isso da maneira mais improvável. Ele era um homem apaixonado pelas glórias da corte, pelos aplausos e pelas honras e, de repente, teve os sonhos interrompidos por uma bala de canhão. Assim, precisou de uma perna quebrada para descobrir que havia algo quebrado muito mais fundo. À primeira vista, parecia uma tragédia. Mais tarde compreenderia que algumas quedas são, na verdade, um jeito delicado de Deus mudar a direção dos nossos passos.
É curioso como a vida faz essas ironias. Às vezes, não é o coração que adoece por causa das feridas do corpo; é o corpo que para e obriga o coração a reaprender o caminho… Será que ainda precisamos adoecer para escutar? Ou já aprendemos a conversar com Deus antes que ele precise aumentar o volume da vida? Eu sou meio mula.

PRESENÇA DE SENTIDO
O fato é que, desde então, desconfio das minhas próprias derrotas. Talvez algumas delas não tenham vindo para me destruir, mas para me libertar de personagens que eu insistia em interpretar… Não será que, muitas vezes, chamamos de fracasso aquilo que Deus chama de começo? Então, eu silencio, mas talvez seja esta uma das maiores revoluções inacianas: acreditar que o silêncio não é ausência de sons, mas presença de sentido.
Por isso, na minha experiência, os Exercícios Espirituais nunca me pareceram um conjunto de técnicas para rezar melhor, eu sempre os percebi como uma escola do olhar. Inácio não ensina apenas a encontrar Deus, na verdade ensina antes de tudo, a retirar as vendas que nós mesmos colocamos sobre os olhos… Porque Deus nunca esteve ausente, pois ausente esteve o nosso olhar.
É curioso mesmo… queremos provas da presença divina enquanto ignoramos os pequenos sacramentos do cotidiano: a criança que sorri sem motivo, a mesa repartida, a lágrima enxugada em silêncio, o educador que insiste em acreditar num aluno desacreditado, a mão enrugada de quem continua abençoando os filhos já adultos, o vento que atravessa as árvores sem pedir licença, o mar que reza salmos antigos na beira da praia, um gato ou galinha que vem ao seu colo… Talvez encontrar Deus em todas as coisas seja, antes de tudo, deixar que todas as coisas nos falem de Deus, embora nem sempre conseguimos.
Há alguns dias em que o coração parece uma gaveta bagunçada. Misturam-se cansaço, expectativas, medos, pequenas vaidades, desejos sinceros e outros nem tanto. É justamente aí, que vejo nas imagens sisudas de Inácio que encontro nas capelas um projeto de sorriso com boca larga e o ouço nos convidar ao discernimento. Não para separar pessoas entre boas e más, mas para reconhecer quais vozes ampliam a vida e quais diminuem nossa humanidade.
Então, percebemos que descobrir os movimentos da alma talvez seja mais importante do que controlar os movimentos do mundo. Vivemos fascinados pela eficiência, enquanto o Evangelho, porém, continua interessado na fecundidade. O mundo pergunta quanto produzimos e Jesus continua perguntando quanto amamos.
Há uma diferença imensa entre sucesso e fecundidade. O primeiro enche currículos; a segunda fecunda vidas. O primeiro costuma fazer barulho; a segunda floresce em silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro “magis inaciano”: Não tanto fazer mais coisas, mas fazer com mais amor. Não acumular tarefas, antes ampliar a capacidade de servir. Não buscar grandezas que impressionam, mas grandezas que humanizam.
Às vezes penso que Deus chama Inácio para rir de nós com infinita ternura. Enquanto fazemos planos para dominar o mundo, ele continua transformando a história através de gente simples: educadores que semeiam perguntas, mães que rezam baixinho enquanto lavam a louça, pais que trabalham sem perder a delicadeza… Jovens que ainda acreditam na justiça, crianças que ensinam aos adultos a difícil arte do encantamento… E eu aqui, “escrevento” inutilidades desimportantes porque o Reino de Deus continua preferindo sementes aos monumentos.

CONTEMPLAÇÃO INACIANA
Por causa de Inácio, julho também me lembra que a vida espiritual não acontece longe da realidade. Ela floresce justamente onde o chão parece mais duro: nas salas de aula, nos corredores da escola, nas conversas interrompidas, nas reuniões cansativas, nas preocupações familiares, nas notícias que entristecem e nas esperanças que insistem em renascer.
Na minha oração, pensei que talvez seja por isso que a contemplação inaciana nunca termina quando a oração acaba. Ela continua andando pelos corredores da vida, continua escutando antes de responder, continua escolhendo antes de reagir e continua procurando, em cada encontro, aquilo que mais conduz ao amor.
No fim, tenho percebido que o envelhecimento também é um exercício espiritual. Vamos perdendo a ilusão de controlar tudo e, aos poucos, aprendemos a confiar. Descobrimos que Deus não nos pede uma existência impecável; pede apenas um coração disponível. O Deus em Jesus Cristo não procura heróis, mas peregrinos, ele não espera perfeição, espera verdade.
Então, fico rezando que talvez seja esta a maior graça de um mês inaciano: recordar que Deus continua trabalhando discretamente no mundo, enquanto imaginamos que tudo depende de nós. Ele permanece escrevendo o Evangelho nas margens da história, escondido nas pequenas fidelidades, nos gestos sem fotografia, nas mãos que servem sem aplausos, na peregrinação interior de quem se dispõe a caminhar juntos…
Quando finalmente compreendemos isso, já não precisamos correr tanto. Basta caminhar atentos. Porque quem aprende a contemplar descobre que Deus nunca esteve distante. Era nós que passávamos depressa demais. Agora, e desde sempre, ele permanecia ali, paciente como a luz da manhã, esperando apenas que nossos olhos se tornassem capazes de enxergar que, em todas as coisas, há sempre um caminho que conduz ao Amor… E viva Santo Inácio de Loyola!
William Tavares – servo menor, aprendente dos jesuítas, poeta e caminheiro, em busca da minha bala de canhão…
Imagens: Secom/CAV e RJE
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