ARTIGO – Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Confira textos com reflexões e alertas, por Luca Andrade
Neste dia 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, publicamos dois artigos do estudante Luca Andrade, que trazem reflexões importantes sobre temas como preconceito (capacitismo) e estereótipos, apresentados no primeiro texto. No outro texto, Luca, que integra o Núcleo Acadêmico de Incentivo ao Conhecimento (Naic) do Colégio Antônio Vieira, ressalta cientistas com deficiência que marcaram a História, artigo originalmente publicado na Revista de Incentivo ao Conhecimento (RIC), uma produção do Naic. Além dos artigos, por iniciativa de Luca Andrade em parceria com o Setor de Comunicação e Marketing (Secom) do colégio, foram instalados pelo Vieira cartazes que orientam estudantes, colaboradores e visitantes sobre como evitar o capacitismo. Confira já os textos!
Estereótipos capacitistas – Como percepções naturalizadas reforçam a exclusão social: reflexões sobre estigmas, linguagem e inclusão social
Por Luca Andrade é estudante do Colégio Antônio Vieira, integrante do Núcleo Acadêmico de Incentivo ao Conhecimento (Naic)

O capacitismo não aparece apenas através de atitudes abertamente discriminatórias. Manifesta-se, também, por meio de atitudes que carregam consigo estereótipos capacitistas que moldam a forma como as pessoas com deficiência são vistas na sociedade, gerando percepções estigmatizantes, tais como o coitadismo, a infantilização e o estigma da incapacidade.
O primeiro estereótipo é o coitadismo, que se manifesta no ato de tratar essas pessoas com pena, enxergando-as como se fossem “inferiores” em relação às pessoas sem deficiência, impedindo o desenvolvimento da autonomia, o que gera atitudes paternalistas, como a superproteção, reforçando a exclusão social deste grupo.
Embora socialmente naturalizado, o coitadismo reproduz estigmas que, historicamente, associam a deficiência à fragilidade e à dependência, contribuindo para a inferiorização social deste grupo, o que desconsidera a pessoa e direciona o foco apenas para a deficiência. Paralelamente, temos a infantilização, que se caracteriza pela tendência em enxergar adultos e adolescentes com deficiência como se fossem ‘’eternas crianças’’, ocorrendo por meio de atitudes como: falar com tom de voz infantil, utilizar diminutivos exageradamente e se referir apenas a quem está acompanhando a pessoa com deficiência no momento. Embora pareça “cuidado”, infantilizar uma PCD a reduz à deficiência, negando sua maturidade, e, consequentemente, limitando a autonomia.
PARA ALÉM DA DEFICIÊNCIA
O estigma da incapacidade associa a deficiência à ausência de competência, autonomia ou produtividade, reforçando a falsa percepção de que pessoas com deficiência seriam menos capazes do que pessoas sem deficiência. Tal estigma contribui para processos de inferiorização social, invisibilizando potencialidades e limitando oportunidades de participação plena na sociedade.
Desconstruir os estereótipos capacitistas é um exercício diário que envolve enxergar para além da deficiência, ou seja, compreender que ela não define a pessoa que a possui, evidenciando, deste modo, que a deficiência constitui uma das características do indivíduo. Por isso, é válida a reflexão: o que enxergamos primeiro: a pessoa ou a deficiência?

Pessoas com deficiência na História da Ciência: contribuições que transformaram o conhecimento
Por Luca Andrade
As pessoas com deficiência enfrentam diversas barreiras para garantir o acesso à educação, às universidades e aos espaços de pesquisa. Ainda assim, essas pessoas contribuíram (e contribuem, até hoje) para o desenvolvimento científico em muitas áreas: na Matemática, na Física, na Química, na Astronomia, entre outros campos de estudo, contribuindo significativamente para o avanço destas vertentes, promovendo importantes descobertas para a comunidade científica.

Hellen Brooke Taussig foi uma importante cardiologista estadunidense com deficiência auditiva. Ela é a fundadora da Cardiologia Pediátrica, contribuindo significativamente para o avanço de sua área, ao fundamentar um método cirúrgico denominado Shunt de Blalock-Taussig, que consiste em aumentar a circulação sanguínea na região dos pulmões, a partir de um desvio artificial entre a artéria subclávia (ou aorta) e a artéria pulmonar. Essa cirurgia é realizada quando o bebê ainda é recém-nascido, e seu objetivo é melhorar exponencialmente os níveis de oxigenação de crianças com cardiopatia, funcionando como uma “ponte”, a fim de garantir a sobrevivência do indivíduo. Outra contribuição importante de Hellen Brooke Taussig para a História da Ciência foi quando, em 1965, Hellen se tornou a primeira mulher a ser presidente da Associação Americana do Coração (AHA), marco muito importante na superação de barreiras atitudinais e arquitetônicas e na luta contra o machismo e contra o capacitismo, o preconceito contra as pessoas com deficiência.
A brasileira Vanessa Romanelli, pós-doutora em Genética pela Universidade de São Paulo, é uma importante cientista brasileira com atrofia muscular espinhal (AME), e tem notáveis contribuições para a História da Ciência a partir de estudos sobre o Teste do Pezinho, método que possibilita a identificação de condições genéticas, como, por exemplo, a AME. Esses estudos são de suma importância, pois eles possibilitam uma melhor compreensão da população brasileira acerca da AME, bem como possibilita maior notoriedade de cientistas com deficiência, contribuindo para a difusão de seus trabalhos.
ESPAÇO PARA TODOS
Na área da Astrofísica, destaca-se a astrofísica norte-irlandesa Jocelyn Bell Burnell, que, em 1967, detectou a existência de pulsares, que são estrelas formadas por nêutrons extremamente magnetizadas, que emitem feixes de radiação eletromagnética, a partir de seus polos magnéticos. Essa conquista foi importante para a Astrofísica, pois possibilitou a ocorrência de estudos de estados extremos da matéria, bem como consolidar o entendimento acerca do fenômeno do colapso estelar. Ainda na vertente da Física, temos o físico Stephen Hawking, importante cientista com esclerose lateral amiotrófica (ELA), teve contribuições de alta relevância para a Física Teórica, ao propor a teoria da Radiação Hawking, concepção que afirma que os buracos negros emitem partículas geradoras de radiação térmica, fazendo com que elas percam massa e, eventualmente, evaporem.

Embora a presença das pessoas com deficiência na história da Ciência seja uma realidade, na qual podemos constatar avanços significativamente importantes em muitas áreas do conhecimento, muitas contribuições deste grupo são constantemente invisibilizadas socialmente, resultando em um apagamento histórico das pessoas com deficiência no campo científico. Tais fenômenos decorrem da persistência do capacitismo, discriminação que frequentemente associa deficiência à incapacidade, perpetuando a falsa ideia de que pessoas com deficiência são “incapazes” e “improdutivas”. As cientistas e os cientistas listados neste presente artigo salientam a importância de enxergar para além da deficiência, permitindo-nos reconhecer as potencialidades e competências das pessoas com deficiência, demonstrando que a ciência é um espaço para todos.
- Luca Andrade é estudante do Colégio Antônio Vieira, onde integra o Núcleo Acadêmico de Incentivo ao Conhecimento (Naic), tendo participado da edição 2025 da Expociência, mostra científica do Colégio, com o projeto “A evolução dos meios de comunicação ao longo do tempo”. Atualmente, também está engajado do projeto ONU Colegial, simulação de conferência da Organização das Nações Unidas, atividade que já participa pela segunda vez consecutiva.
Imagens: Instagram, Catraca Livre e Secom/CAV
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