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17.09.26

ARTIGO – ‘O legado dos cientistas negros na ciência moderna’, por Nalu Almeida

Confira o texto de autoria da estudante vieirense publicado na Revista de Incentivo ao Conhecimento (RIC), do Naic*

ARTIGO – ‘O legado dos cientistas negros na ciência moderna’, por Nalu Almeida

Por Nalu Almeida*, estudante do Colégio Antônio Vieira

“Em uma sociedade racista, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.” A famosa frase atribuída a Angela Davis, professora, filósofa e ativista estadunidense, sintetiza uma necessidade urgente das sociedades contemporâneas: compreender que o racismo não se manifesta apenas por atitudes individuais, mas principalmente pelas estruturas que organizam a vida social. No campo científico, esse fenômeno pode ser observado na forma como determinados grupos tiveram, ao longo da história, maiores oportunidades de produzir conhecimento, enquanto outros enfrentaram barreiras sistemáticas de acesso à educação, ao financiamento de pesquisas e ao reconhecimento acadêmico.

Durante séculos, a população negra foi privada do acesso à escolarização e às universidades em diversos países, consequência direta da escravidão, da segregação racial e de políticas discriminatórias que limitaram sua participação em espaços científicos. Esse cenário contribuiu para um processo de apagamento histórico: inúmeros pesquisadores negros tiveram suas descobertas pouco divulgadas, receberam menos reconhecimento que colegas brancos ou precisaram superar obstáculos significativamente maiores para desenvolver suas carreiras. Reconhecer essas trajetórias não significa diminuir as conquistas da ciência, mas compreender que a produção do conhecimento sempre foi diversa, ainda que nem sempre tenha sido apresentada dessa forma.

É nesse contexto que se destacam pesquisadores cujas contribuições transformaram diferentes áreas da ciência moderna. Suas trajetórias evidenciam que talento, inovação e rigor científico nunca dependeram de raça, embora o reconhecimento frequentemente tenha dependido.

FAZENDO CIÊNCIA, CONSTRUINDO HISTÓRIA

Entre esses nomes encontra-se Katherine Johnson, matemática responsável por cálculos fundamentais para algumas das mais importantes missões da Nasa durante a Corrida Espacial. Em uma época marcada pelas leis de segregação racial dos Estados Unidos, Johnson precisou enfrentar não apenas os desafios científicos de seu trabalho, mas também as barreiras impostas por uma sociedade que restringia a participação de mulheres negras em instituições de pesquisa. Sua precisão matemática foi decisiva para o sucesso das missões Mercury e Apollo — posteriormente levando o homem à lua —, demonstrando que o avanço da exploração espacial também foi construído pelo trabalho de cientistas que, por muito tempo, permaneceram invisibilizados pela história oficial.

Poucos anos depois, Jane Cooke Wright revolucionou a oncologia ao desenvolver técnicas que permitiram testar medicamentos quimioterápicos em células cancerígenas cultivadas em laboratório. Essa inovação possibilitou selecionar tratamentos mais eficazes para diferentes pacientes, antecipando princípios hoje presentes na medicina personalizada. Em um ambiente científico predominantemente masculino e branco, Wright consolidou-se como uma das maiores referências mundiais na pesquisa sobre o câncer, contribuindo tanto para o avanço da medicina quanto para a ampliação da presença feminina e negra em cargos de liderança científica.

Enquanto isso, no Brasil, Milton Santos transformava profundamente a Geografia ao propor uma nova compreensão sobre o espaço geográfico. Para o pesquisador, o espaço não era apenas um cenário físico, mas resultado das relações econômicas, políticas e sociais estabelecidas entre indivíduos, empresas e governos. Suas análises sobre urbanização, globalização e desigualdade permitiram compreender como o desenvolvimento econômico produz diferentes formas de exclusão social. Foi Santos que, em conjunto com a geógrafa Maria Laura Silveira, elaboraram “Os Quatro Brasis”, proposta de regionalização do território que vai muito além da geografia física.

O geógrafo baiano Milton Santos (1926-2001)

A proposta considera não só as diferenças culturais e materiais, mas também possui critérios socioeconômicos, sendo o principal a difusão do meio técnico-científico-informacional, que avalia a desigualdade da infraestrutura de redes de informações, transportes, finanças, mercadorias e as heranças históricas de ocupação do território brasileiro. Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, suas reflexões também dialogam com a forma desigual como determinados grupos ocupam e vivenciam os espaços urbanos, tornando sua obra referência internacional nas ciências humanas.

Na área da Astrofísica, Arthur Bertram Cuthbert Walker II realizou pesquisas fundamentais sobre a radiação ultravioleta emitida pelo Sol e desenvolveu tecnologias ópticas que ampliaram significativamente a capacidade dos telescópios espaciais. Seus estudos influenciaram instrumentos utilizados em importantes missões da Nasa, contribuindo para uma observação mais precisa do universo. Além de pesquisador, Walker dedicou parte significativa de sua carreira à formação de novos cientistas, defendendo a ampliação da diversidade dentro das universidades e incentivando estudantes negros a ingressarem em áreas tradicionalmente marcadas pela baixa representatividade.

Também na medicina, Patricia Bath promoveu uma verdadeira revolução ao desenvolver o Laserphaco Probe, equipamento que modernizou as cirurgias de catarata por meio da utilização de tecnologia a laser. A invenção permitiu tratamentos mais seguros, menos invasivos e com maiores índices de recuperação da visão. Bath tornou-se a primeira mulher negra a registrar uma patente médica nos Estados Unidos e defendia que a visão deveria ser reconhecida como um direito humano, evidenciando que ciência e compromisso social podem caminhar conjuntamente na promoção da qualidade de vida.

CIÊNCIA CONTEMPORÂNEA

A biomédica baiana Jaqueline Goes

Representando a produção científica contemporânea, a biomédica brasileira Jaqueline Goes de Jesus ganhou reconhecimento internacional ao liderar a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 apenas quarenta e oito horas após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil. O rápido resultado permitiu compreender a circulação do vírus, monitorar variantes e fortalecer a vigilância genômica durante a pandemia. Sua atuação demonstrou a capacidade da ciência brasileira de responder rapidamente a desafios globais e reafirmou a importância do investimento em pesquisa, tecnologia e formação científica.

Embora tenham desenvolvido pesquisas em áreas distintas, Katherine Johnson, Jane Cooke Wright, Milton Santos, Arthur Bertram Cuthbert Walker II, Patricia Bath e Jaqueline Goes de Jesus compartilham uma característica essencial: todos contribuíram decisivamente para ampliar os limites do conhecimento humano, mesmo enfrentando obstáculos decorrentes das desigualdades raciais presentes em suas respectivas sociedades. Suas trajetórias demonstram que a história da ciência é muito mais plural do que frequentemente é apresentada nos livros didáticos.

Como observa Lélia Gonzalez, ativista e pesquisadora brasileira, o racismo constitui um elemento estruturante da sociedade brasileira e de outras sociedades marcadas pelo colonialismo, influenciando também quais narrativas são valorizadas e quais são silenciadas. Assim, reconhecer o legado desses pesquisadores não representa apenas um gesto de reparação histórica, mas um compromisso com uma ciência mais fiel à sua própria trajetória. Valorizar cientistas negros significa compreender que o avanço científico sempre foi resultado da diversidade de experiências, perspectivas e conhecimentos produzidos por diferentes povos. Tornar essas contribuições visíveis é, portanto, fortalecer uma ciência mais democrática, inclusiva e historicamente verdadeira.

  • Nalu Almeida é estudante do Colégio Antônio Vieira. O artigo foi publicado originalmente na Revista de Incentivo ao Conhecimento (RIC), uma produção do Núcleo Acadêmico de Incentivo ao Conhecimento (Naic), um dos núcleos de protagonismo estudantil do Colégio.

Fotos: Secom/CAV, Revista Nordeste e reprodução Instagram

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