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30.04.26

Ex-aluno e atual pai vieirense, Bel Borba destaca colégio e princípios jesuíticos no jornal A TARDE

Artista plástico foi destaque esta semana da coluna Olhares, assinada pelo crítico de arte Celso Cunha Neto 

Ex-aluno e atual pai vieirense, Bel Borba destaca colégio e princípios jesuíticos no jornal A TARDE

O renomado artista plástico baiano Bel Borba, ex-aluno e pai vieirense, foi tema esta semana de matéria especial da coluna Olhares, assinada pelo arquiteto Celso Cunha Neto. Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), Cunha Neto destacou a singularidade das obras de Borba espalhadas por espaços urbanos. O artista, por sua vez, lembrou a importância de sua formação desde os tempos de aluno do Colégio Antônio Vieira e seus princípios jesuíticos. “Herança ética que amplia a leitura de sua produção para além da forma”. A coluna Olhares é publicada aos domingos no caderno cultural Muito, do jornal A TARDE. Confira a íntegra da publicação especial com Bel Borba! 

A cidade como escrita viva

Entre mosaicos, resíduos urbanos e imagens de permanência, a obra de Bel Borba faz de Salvador uma matéria sensível, uma memória em movimento, uma linguagem crítica que se escreve no espaço público.

Num sábado de luz intensa, já na abertura do outono baiano, cheguei ao velho e ainda bucólico Matatu de Brotas. Numa transversal da Avenida Pitangueiras, silenciosa e sombreada, encontrei a casa e o ateliê de meu amigo Bel Borba. Ali, entre telas, esculturas, maquetes e projetos, um grande cavalete sustentava uma pintura de vastas dimensões, quase um painel em estado de nascimento.

A conversa começou com o propósito de reunir elementos para este ensaio, mas logo assumiu o tom dos reencontros verdadeiros: antigos vínculos, memórias partilhadas, lembranças dos jardins e das paredes do Setor Pediátrico do Hospital Aliança, sob a generosidade do empresário Paulo Sérgio Tourinho, mecenas atento e sensível às artes plásticas baianas. Entre uma lembrança e outra, e depois de algumas taças de vinho, foi se armando, com nitidez, o retrato de um dos artistas mais presentes no imaginário visual da Bahia.

Bel Borba pertence àquela rara linhagem de criadores cuja obra não apenas ocupa a cidade, mas a reinterpreta. Em suas mãos, Salvador deixa de ser cenário para tornar-se organismo: vivo, estratificado, ferido, exuberante, sempre em processo. Muros, encostas, praças, avenidas, túneis e gradis deixam de ser meros elementos funcionais e passam a existir como superfícies de inscrição simbólica. O mosaico, em seu trabalho, não é ornamento. É escrita pública. É gesto de reordenação da paisagem. É modo de devolver à cidade a sua espessura histórica e poética.

Destinos inseparáveis

Nascido em Salvador, em 1957, Bel teve desde cedo o desenho e a pintura como companhia íntima, mediados pelo irmão mais velho, Almir, que o introduziu no fazer artístico. Há, nessa origem, uma revelação decisiva: a arte não lhe surgiu como vocação abstrata, mas como prática incorporada à vida, como forma de olhar e de tocar o mundo.

Quando ingressou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em 1976, e abandonou o curso de Direito, apenas confirmou uma escolha já anunciada pela própria sensibilidade: a de seguir a matéria, a forma e a cidade como destinos inseparáveis.

Essa fidelidade, contudo, nunca foi rigidez. Pintura, desenho, gravura, escultura, instalação, mosaico e intervenção urbana aparecem em sua obra como variações de um mesmo impulso criador. Cada suporte convoca uma resposta própria, cada material exige uma escuta particular. Há, nesse trânsito, uma inteligência plástica rara: a de não repetir fórmulas, mas reinventar soluções a partir da resistência do mundo.

É no espaço urbano que essa poética alcança sua maior temperatura. Desde os anos 1980, suas intervenções em Salvador alteram o modo como a cidade é percebida. Bel não suaviza a paisagem: ele a expõe, a reativa, a faz falar. Trabalha com resíduos, fragmentos da implosão da Fonte Nova, sucatas, restos de embarcações, barreiras de trânsito descartadas, madeira, aço, concreto, azulejos cortados. Nada ali é apenas material; tudo carrega história, desgaste, circulação, abandono e renascimento. O que era resto torna-se form a. O que era descarte converte-se em permanência.

Inteligência prática

Sua relação com o tempo segue a mesma lógica. Em obras como Ontem, Hoje, Amanhã, a cidade é recortada, remontada e devolvida como palimpsesto: uma superfície em que o passado não desaparece, mas continua a vibrar sob novas camadas.

O tempo, em Bel Borba, não avança em linha reta. Ele se dobra, se sobrepõe, se infiltra. O que veio antes não se extingue; ressurge, transfigurado, no presente.

Essa dimensão aparece também na presença dos saveiros, dos saveiristas e dasformas populares de habitação e uso da cidade. Em vez de folclorizar, Bel reinscreve. Em vez de idealizar, ele devolve densidade histórica ao que frequentemente é reduzido ao pitoresco. Saveiros, velas remendadas, corpos em trabalho, muros, lajes, puxadinhos, encostas e túneis surgem como expressões da inteligência prática de uma cidade que se reinventa a partir de seus próprios limites.

Formalmente, sua obra equilibra figuração e expressividade com liberdade incomum. Figuras humanas, animais, cenas urbanas e signos populares passam por sínteses visuais intensas, que os afastam do naturalismo sem conduzi-los à abstração pura. O traço é vigoroso, a cor é puIsante, a superfície vibra. Há algo de expressionista, cubista e pop em sua linguagem, mas sem aderência definitiva a qualquer filiação. Bel Borba não se deixa fixar por escola: ele prefere o risco da invenção contínua.

Há, ainda, uma dimensão corporal decisiva em sua produção. O gesto é rápido, mas preciso. A montagem é inventiva, mas nunca arbitrária. A escultura, em especial, faz do peso uma oportunidade de leveza: vazios, recortes e curvas abrem a matéria ao espaço, como se o metal pudesse respirar junto com a cidade. Não se trata de impor formas ao entorno, mas de fazê-las coexistir com ele.

Marco íntimo

Sua biografia pessoal também ajuda a compreender a intensidade dessa trajetória. A paternidade, segundo o próprio artista, divide sua vida em antes e depois. Esse marco íntimo reorganiza o modo de ver, sentir e estar no mundo.

A obra, em Bel Borba, não se separa da experiência vivida; ao contrário, nasce dela e a prolonga. O vínculo com a família, com a mãe, com a filha, com o Colégio Vieira e com os princípios jesuíticos que reivindica como herança ética que amplia a leitura de sua produção para além da forma.

Bel também insiste em algo precioso: a arte deve alcançar o homem comum. O transeunte, o morador, o passante, aquele que não frequenta o circuito especializado, mas é afetado por ele. Por isso sua obra busca a rua, a circulação, o encontro. A cidade é o seu museu mais amplo e talvez o mais democrático. Ali a imagem se expõe, se prova, se transforma em experiência partilhada.

Sua projeção internacional, com trabalhos em Nova York, inclusive na Times Square, e o Monumento aos Refugiados, em Madri, confirma a força de uma linguagem nascida em Salvador, mas capaz de dialogar com outras geografias urbanas sem perder enraizamento. Quanto mais local é sua obra, mais universal ela se torna.

Em Bel Borba o passado não passa: persiste. O presente não apaga: sobrepõe. E com ele Salvador reaparece como uma cidade que nunca se fecha, porque continua a ser escrita.

Talvez aí resida sua força maior. Bel Borba trabalha no ponto em que a arte deixa de representar o mundo e passa a reorganizá-lo. Com poucos gestos. Com matéria carregada. Com a precisão de quem sabe que a beleza, às vezes, nasce do que a cidade insiste em descartar. E quando isso acontece, a cidade fala.

Fonte: Coluna Olhares/Celso Cunha Guedes/Jornal A Tarde
Fotos: Valter Pontes, divulgação e agência A Tarde

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