04.05.17

Travessias na arte de educar: riscos e possibilidades

Texto faz parte da série de reflexões sobre o cuidado nas relações e na internet.

“Às onze da noite, dormindo um sono profundo, ouvi um barulho de respiração muito próximo. Sonho? Não! Baleias, talvez? Dez minutos mais tarde fui abalroado por um animal enorme. O barco inteiro balançou.” (Amir Klink)

Nos últimos tempos fomos tomados por discussões que demarcam preocupações com uma baleia que, igualmente a que aterrorizou o Amyr KlinK, representa riscos pela sua existência concreta e apavorante. A Baleia Azul, jogo assim denominado, não saiu do noticiário, das conversas dos jovens e pareceu ocupar um espaço/tempo maior de discussão sobre o mundo que habitamos: suas contradições, fenômenos e processos cada vez mais excludentes.

No seu livro Gestão de sonhos, riscos e oportunidades, Amyr Klink narra a sua travessia no mar, elucidando os prazeres, perigos e aprendizagens. Aproveito a imagem do mar e do barco inteiro que se balançou para refletir sobre esse cotidiano imerso no tempo líquido em que vivemos. A nossa pretensão na viagem não é a extinção da “baleia”, mas educar para a consciência da sua presença e para as possibilidades de convivência com os riscos e oportunidades. O barco, quando sai do porto, assim como o filho, quando lançado ao mar, parte para desbravar mares e descobrir rotas, e ao seu casco, antes, muito será acrescentado. Serão, como afirma Vilmar Berna, os camarotes, porões, motores, guindastes, pintura, enfeites que deixarão o barco pronto para a primeira viagem e poderemos traduzir tudo isso em ânimo, coragem, iniciativa, discernimento, resiliência e fé.

A travessia é sempre um convite aparentemente seguro, ancorado em expectativas de encontrar do outro lado um mundo que idealizamos e desejamos, mas que também se move independentemente da nossa vontade. Assim, também se configura a navegação por teclas, com o agravante de que as insólitas tecnologias aliam intenções e palavras nas mensagens que circulam, reduzindo o seu usuário a mero objeto. Existe no jogo virtual Baleia Azul um chamado para uma travessia, inicialmente marcada por desafios que atraem a atenção dos jovens, pessoas com expectativas, sonhos, características singulares, medos e anseios próprios. Assistir aos filmes de terror e, ao mesmo tempo, tirar fotos de si os mantém indiferentes aos apelos letais. Essa perspectiva convoca-nos a prestar mais atenção nas relações que os nossos jovens estabelecem consigo mesmos, com os pais, colegas, amigos e professores, a partir do que fazem e sentem no cotidiano. Trata-se de uma bússola importante para compreender narrativas, ações e situações que desembocam num aparente imobilismo deles diante das transformações aceleradas da vida em sociedade. O que pensam e sentem os jovens na contemporaneidade? Em que boias eles se agarram para se manterem seguros enquanto navegam, principalmente nas redes sociais? Até quando essas boias aguentarão o peso de seus corpos?

Nós, pais, nos encontramos também nesse mar em que é preciso soltar as amarras do barco, confiantes nos princípios e valores que promovemos juntos e que nortearão os rumos da navegação. Como cuidar para que as adversidades não se voltem para a destruição do barco? Como ajudar, quando a automutilação, induzida num jogo virtual, atenta para a fragilidade do ser? Junto a baleia, para Klink, apareceram o cansaço, o frio, a necessidade de trocar a vela vinte vezes, mas ele cuidou do barco, lembrou-se da sua sobrevivência, do seu objetivo e da sua fé na vida.

O mar será sempre um desafio, mas a vida e os projetos que escolhemos representam sempre caminhos, oportunidades de crescimento… Cada barco, assim como cada filho, é singular. O cuidado na formação desse casco não apenas se dá na infância, fase em que visivelmente se clama por cuidados e o ser apresenta-se aparentemente indefeso. Segunda Amyr Klink, “a gestão do barco é difícil e cobra muito da gente”, assim como educar um filho. É sempre estar atento ao cotidiano, preparar-se para ali estar não com respostas prontas, mas para “mergulhar” nas problemáticas que surgem e “respirar” para dialogar e sentir com eles o alento, o afago e a presença.

Um barco que se coloca a navegar sem propósitos e acompanhamento da rota fica à deriva, sem condições de lidar com as destrezas e adversidades. Fica exposto ao lado sombrio da navegação, que, como no jogo virtual, apresenta defeitos que comprometem o seu funcionamento e sua existência no mundo, por isso a trágica indução à parte final do jogo: atentar-se contra a própria vida.

Quando Klink menciona que tinha uma visão melhor do funcionamento do seu barco do que um engenheiro naval, ele reforça o quanto a afetividade está implicada no processo de aprender. É tão bom encontrar pais que conhecem o seu barco e que ajudam na revisão do motor, na troca de eixos, no conserto do leme, na correção das rotas… Num movimento de encontro consigo, com o entorno e com o filho, enquanto educa! Assim, cuidamos do barco (sagrado) que lançamos no mar e atribuímos o valor à vida como direito, dom divino, mistério.

Como as baleias, os barcos continuarão a existir ligados ao mar e entre si. Poderemos rever sempre com os nossos filhos as rotas para apoderar-se do mar, aproveitando as forças contrárias a favor de uma navegação marcada pela aprendizagem do olhar, do sentir, do intuir, do fazer, do escutar, tornando-a significativa e cheia de sentido. Não estamos prontos e poderemos construir rumos que nos tornarão mais felizes, porque autores de uma arte que não tem fim: EDUCAR! Afinal, qual a razão de ser dos barcos, caravelas, navios sem a existência do mar? Que os riscos e as possibilidades nos coloquem no caminho evolutivo, atentos não só aos “balanços” do barco, mas, como afirma Andréa Ramal, aos “sinais e marcas indeléveis do Criador do qual todas as coisas provêm e para o qual todas se dirigem.”

Referências

ALMEIDA, S. Gestão de sonhos: riscos e oportunidades- Entrevista de Amyr Klink a Sérgio Almeida. Salvador, Ba: Casa da Qualidade, 2000.

BERNA, V. Desafio do mar. São Paulo: Paulus, 2000.

RAMAL, A.C. Carta de Santo Inácio de Loyola a um educador de hoje. São Paulo: Edições Loyola, 2002

*A pedagoga Vânia Virgens é mãe, coordenadora pedagógica do Vieira, mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social.

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