PRIMAVERA DOS MUSEUS – Acervos singulares ampliam aprendizagens de crianças e jovens em Salvador
Neste último final de semana da 20ª edição da Primavera dos Museus, apresentamos a matéria especial sobre como a visita a museus tem contribuído para a educação de crianças e jovens em Salvador. A reportagem foi originalmente publicada na edição 2026 da revista VIEIRA +, do Colégio Antônio Vieira. Com tema “Museus para Todas as Pessoas”, o evento nacional “Primavera dos Museus” promove uma programação especial para incentivar a população a visitar mais os museus em sua cidade. A ação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) começou no último dia 21 e segue até este domingo (27). Confira agora a matéria publicada na VIEIRA+ e visite já os acervos incríveis da capital baiana. Ao final, confira os endereços e horários de funcionamento de alguns.
Museus de Salvador guardam acervos singulares e ampliam possibilidades de novas descobertas e aprendizagens

Por Roberto Midlej
Memórias, histórias, descobertas e expressões culturais que ajudam a compreender a sociedade, o passado e até os desafios do presente. Em meio à rotina acelerada dos tempos contemporâneos, os acervos dos mais de 40 museus e espaços culturais da cidade de Salvador seguem como uma oportunidade para ampliar as aprendizagens, despertando a curiosidade de crianças e jovens de maneira única.
As visitas aos museus, em aulas de campo promovidas pela escola, aproximam os alunos do conhecimento sobre o mundo e também da própria identidade. “Ao colocar estudantes, da Educação Infantil ao Ensino Médio, em contato com a história, as artes visuais contemporâneas e a cultura afro-brasileira, o museu amplia horizontes, tensiona narrativas estabelecidas e contribui para o reconhecimento da diversidade como valor estruturante da sociedade”, diz Cintia Maria, diretora do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), no Centro Histórico.
Inaugurado em 2009, o Muncab é, segundo define a própria instituição, “um museu com ênfase na valorização de aspectos da cultura de matriz africana, destacando a sua influência sobre a cultura brasileira”. Como Salvador é uma cidade profundamente influenciada pela cultura africana, conhecer o espaço contribui para que os baianos valorizem e se aproximem ainda mais de suas raízes.
Memória negra
Professor de História do Colégio Antônio Vieira, no bairro do Garcia, Thiago Palma ressalta a importância do Muncab para a preservação da memória negra: “Ali, temos um entendimento que vai além da visão eurocêntrica. Quando vamos a espaços como este, pensados na perspectiva decolonial [que desconstrói os legados da colonização], a gente aprende História de outra maneira e percebe que a nossa cultura é diversa e não é moldada somente no que os portugueses planejaram”.

Grupos de estudantes do Vieira visitam anualmente o Muncab. No mesmo dia, conferem ainda o acervo da Casa do Carnaval, situada também no Centro Histórico. A Casa do Carnaval conta a história da folia baiana com diversos recortes temáticos.
O espaço dispõe de maquetes, roupas e instrumentos emprestados por artistas, além fotos e documentos históricos e dois cinemas, onde os visitantes podem aprender ritmos da festa, caracterizados e com a ajuda de monitores. Tem curadoria do arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia, que também comandou o projeto de implantação da Casa do Rio Vermelho – Jorge Amado e Zélia Gattai. O famoso escritor baiano também estudou no Vieira.

“Os museus e outros espaços culturais fazem parte da pauta pedagógica do Vieira”, afirma a professora Eneida Santana, coordenadora pedagógica do Ensino Médio Noturno da instituição. No turno, estudam os jovens selecionados pelo programa de bolsas de estudo da Associação Antônio Vieira. A professora revela casos de estudantes que sequer conheciam museus, até as aulas de campo propostas pelo colégio. “Alguns ainda entendiam o museu de forma pejorativa, como algo velho ou inalcançável. Mas, nas visitas, eles concretizam aprendizagens e veem na prática concepções que antes estavam apenas no imaginário e no teórico”.
Murilo Dias, aluno do Ensino Médio Noturno do Vieira, esteve na Casa do Carnaval e no Muncab com a escola. “Na Casa do Carnaval, tive a experiência de escutar músicas antigas e pude entender a história do Carnaval, que não é só festejo. Lá, vimos instrumentos e conhecemos os significados das máscaras, por exemplo”, lembra o estudante.

“Esses momentos fora do colégio auxiliam muito na compreensão dos assuntos que aprendemos em sala”, defende Murilo. Para ele, as visitas a museus e outros espaços culturais e formativos contribuem também para a integração com os colegas: “Desde a hora da saída do ônibus, já sentimos uma energia diferente e ficamos alegres. Nós aprendemos muito com os professores em sala de aula, mas o aprendizado em campo é ainda mais dinâmico”. Os colegas do turno diurno do colégio também gostam das aulas de campo nos museus. Lara Moraes conta que gostou muito da visita ao Museu Afro-Brasileiro (Mafro), situado no Largo do Terreiro de Jesus, no prédio da Faculdade de Medicina da Bahia – vizinho ao prédio onde a Companhia de Jesus, ordem religiosa da qual faz parte o Vieira, fundou o primeiro colégio do Brasil: o Colégio dos Jesuítas.
Atualmente, o Mafro abriga um acervo de mais de 1.100 peças de cultura material africana e afro-brasileira, contribuindo ativamente para a divulgação e preservação destas matrizes culturais. “O que mais me chama a atenção nos museus é a grandiosidade da cultura que a gente tem; e muita gente desconhece isso, não procura pesquisar a própria cultura, sua raiz. Então, quando fui lá, me senti muito representada, até por ter uma ascendência negra”, declarou Lara.

Santa Casa da Misericórdia
Na Praça da Sé, ainda na região do Centro Histórico, o Museu da Misericórdia é outro espaço que, segundo o professor Thiago Palma, vale a pena visitar. “Sempre vou lá, mesmo quando não estou em atividades com estudantes. Há guias com conhecimento técnico, e o acervo é bem conservado”, elogia. A instituição, mantida pela Santa Casa da Bahia, foi inaugurada em 2006 e possui um acervo com mais de 3,8 mil peças. Um dos destaques é o painel de azulejos de 1712 que reproduz a Procissão do Fogaréu, que a Irmandade da Santa Casa realizava na noite da Quinta-Feira Santa.

O professor Thiago ressalta que o Museu da Misericórdia impressiona pela riqueza histórica e arquitetônica: “Tem um modelo de farmácia antiga e o primeiro carro movido a gasolina que chegou à Bahia, além de uma estátua em tamanho real do Marquês de Pombal. Para completar, há ainda uma bela vista para a Baía de Todos-os-Santos e uma linda escadaria”.
Uma cadeira usada por D. Pedro II e uma escrivaninha que pertenceu ao jurista baiano Ruy Barbosa são outras raridades que poderão ser conferidas pelos visitantes. Osvaldina Cezar, gerente de patrimônio cultural do Museu da Misericórdia, dá detalhes da peça que foi usada pelo imperador: “É feita de jacarandá e revestida de veludo vermelho. O trabalho de entalhe dos braços e pernas possui volume que se expressa pelo torneado e detalhes em folhas estilizadas”. O móvel foi confeccionado para receber Dom Pedro II em 1859.

Arte
A visita ao Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) também faz parte das aulas de campo do Vieira, abrangendo componentes curriculares de arte, cultura e história. Localizado no histórico Solar do Unhão, o MAM é um importante centro cultural, com exposições de artistas nacionais e internacionais, além de promover atividades educativas e eventos diversos. O local ainda encanta pela localização, às margens da Baía de Todos os Santos, configurando-se ainda como um dos principais cartões postais da cidade.

Geologia
Já mais na região vizinha ao Vieira, no Corredor da Vitória, está o Museu Geológico, também visitado regularmente pelos estudantes do colégio. Um dos professores que realizam aulas de campo ali com frequência é Marcos Pimentel, de Geografia. “Sair para as aulas de campo, em especial visitar museus, é uma rica oportunidade para conectar a teoria à prática, tornando o aprendizado uma experiência viva. Essas visitas estimulam a curiosidade, o pensamento crítico e a observação científica”, afirma Marcos.
No acervo do Museu Geológico, estão cerca de 20 mil peças, incluindo itens geológicos, minerais e fósseis. Entre os espaços mais interessantes para os estudantes, Marcos destaca a sala interativa “O Universo”. Há também salas com exposições sobre meteoritos, rochas ornamentais, petróleo, garimpo e réplicas de fósseis de animais pré-históricos, como o mastodonte.
Casa das Histórias: museu interativo

Outro espaço que tem contribuído para as aprendizagens de estudantes do Vieira é a Casa das Histórias de Salvador, na região do Comércio. Considerado um Centro de Interpretação do Patrimônio, o espaço permite às crianças e jovens conhecer histórias que seguem transformando, ao longo de quase cinco séculos, os diversos povos que deram origem à primeira capital do Brasil.
Por meio de reproduções, materiais digitais e/ou linguagens interativas e tecnológicas, os estudantes têm uma experiência imersiva que os provoca a olhar a cidade de um jeito novo e particular, ao reafirmar Salvador como um dos principais centros urbanos, paisagísticos, arquitetônicos e culturais do país, valorizando seu patrimônio e potencial para as gerações.
VISITE VOCÊ TAMBÉM!
- Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab): Rua das Vassouras, 25 – Centro Histórico. De terça a domingo, das 10h às 17h. Instagram: @muncab.oficial
- Museu da Misericórdia: Rua da Misericórdia, 6 – Centro Histórico. De terça a sexta, das 9h às 16h30, e sábado, das 9h às 16h. Instagram: @museudamisericordia
- Museu Afro-Brasileiro da Ufba: Largo do Terreiro de Jesus – prédio da Faculdade de Medicina da Ufba. De segunda a sexta, das 9h às 12h30 e das 13h30 às 17h (exceto feriados). Instagram: @mafroufba
- Museu Geológico: Corredor da Vitória, 2.195. De terça a sexta, das 13h às 18h, e sábado e domingo, das 13h às 17h. Instagram: @museugeologicodabahia
- Casa do Carnaval: Praça Ramos Queirós, s/n – Pelourinho. De terça a domingo, das 9h às 17h. Instagram: @casadocarnavaldabahia
- Casa das Histórias de Salvador: Rua da Bélgica, 2 – Comércio. De terça a sábado, das 9h às 17h (entrada até 16h), e domingos e feriados, das 10h às 17h (entrada até 16h). Instagram: @casadashistoriasdesalvador
- Museu de Arte Moderna (MAM): Avenida Lafayete Coutinho, s/n – Comércio. De terça a domingo, das 10h às 18h, conforme a programação das exposições. Instagram: @bahiamam
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Fotos: Maiara Bulcão e Mateus Nunes (Secom/CAV),
Valter Pontes e divulgação.
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