19.10.21

Biblioteca do Vieirinha ganha painel em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus

Ação integra programa do Colégio Antônio Vieira voltado para uma educação antirracista

Biblioteca do Vieirinha ganha painel em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus

A história de superação e amor à literatura da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras brasileiras, agora está retratada em um painel da Biblioteca Pe. Gino Raísa, SJ – a colorida e estimulante “Biblioteca do Vieirinha”, destinada aos estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental (EF) do Colégio Antônio Vieira. A ação integra o programa da instituição voltado para uma educação antirracista, que também envolva, desde cedo, as crianças. 

“Esse painel é uma homenagem a uma escritora brasileira, negra, e nossa escola está muito preocupada com a questão do racismo no mundo e, por isso, temos um programa de educação antirracista. Vocês também, desde a idade de vocês, precisam também ter consciência do quanto é importante que todos sejam tratados com dignidade na sociedade. Carolina de Jesus é um exemplo para a gente: mesmo sempre tendo revelado um potencial fantástico como escritora, ela enfrentou muitas dificuldades. Sua história e livros são uma inspiração de que é preciso trabalhar por uma sociedade mais justa”, declarou a diretora-geral do Vieira, professora Mariângela Risério, para os alunos, representantes das turmas, presentes à inauguração do painel. 

A diretora-geral do Vieira, profa. Mariângela Risério, e a designer Tina Guedes destacaram história inspiradora da escritora

Ex-aluna do Vieira, a artista e designer Tina Guedes, que assina o painel, explicou detalhes de cada elemento da composição e revelou o quanto ela espera que a criação também contribua para inspirar os pequenos leitores a vencer dificuldades em prol de seus objetivos e sonhos. “Foi com muito honra que recebi este convite do Vieira para fazer este painel em homenagem a Carolina Maria de Jesus, que é um exemplo de uma pessoa que tem força, vontade, garra, para transformar a realidade que vive, tendo conseguido isso através da leitura, descobrindo o poder das palavras e da imaginação. Vocês também precisam prestar a atenção na imaginação de vocês, pois tudo que existe no mundo foi pensado por alguém. Então, tudo parte da imaginação”, disse. 

A professora Camila Portugal, que atua no Vieira como orientadora educacional e também coordena o Comitê para Educação Étnico-Racial e de Gênero do colégio, evidenciou o quanto a iniciativa do painel, “além de ressaltar a história da escritora, insere-se no contexto de afirmação de pessoas negras como legado de conhecimento e estímulo para novas gerações”. Já a coordenadora de Projetos Culturais, professora Sálua Chequer, destacou a importância do espaço da biblioteca para a homenagem à escritora que gostava muito de ler, assim como revelaram as crianças que estavam presentes no evento, levantando as mãozinhas quando questionadas por ela sobre o tema. Na oportunidade, a bibliotecária Jaqueline Torres, que é gestora das bibliotecas do colégio, revelou que os estudantes do Vieirinha terão mais acesso à história e o exemplo da escritora Carolina Maria de Jesus, em apresentações a serem realizadas, para as turmas completas, a partir desta semana.

A Profa. Sálua Chequer e a bibliotecária Jaqueline Torres também ressaltaram exemplo de Carolina de Jesus

HISTÓRIA EXEMPLAR

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Vivia em uma comunidade rural com seus pais que trabalhavam em uma fazenda produtora de leite. O tempo passou e Carolina teve que mudar para a extinta comunidade de Canindé, na zona norte de São Paulo. Ali, ela construiu sua própria casa onde morava com seus três filhos. Catava papelão para sobreviver, porém o que a movia, o que alimentava seus sonhos, eram os livros e a escrita. Ela começou a registrar o dia a dia das pessoas daquela comunidade e a vida dura daquele lugar, bem como as situações de racismo enfrentadas. 

Apesar da realidade dolorosa, Carolina não deixava de sonhar. No lixão quando encontrava algum livro, revista, jornal levava para casa para ler à noite. Era o que alimentava sua alma, seu espírito sonhador. Além do diário, ela escrevia, poesias, contos e romances. Tinha o sonho de ver sua obra publicada, mas o fundamental é que para ela, escrever era uma necessidade, assim como respirar, comer e beber.

Um certo dia, apareceu na comunidade um jornalista, Audálio Dantas. Ao fazer uma reportagem sobre a vida no naquele local, viu uma mulher corajosa enfrentando um grupo de homens. Motivo? Eles faziam bagunça no parquinho das crianças. “Se vocês não saírem, vou escrever isso no meu diário!”, disse Carolina. O jornalista ficou curioso pra conhecer o diário de Carolina. Ela o levou  até seu barraco e mostrou a pilha de cadernos. O jornalista, quando leu alguns trechos, ficou de queixo caído. Havia vida, força e beleza naqueles escritos. “Já tenho minha reportagem”, disse, completando: “… e se chama Carolina Maria de Jesus”.

No dia 9 de maio de 1958, o jornal Folha da Noite publicou uma matéria contando a história da catadora de papel. A reportagem apresentava trechos do diário de Carolina e anunciava que ele seria publicado em livro com o título: Quarto de despejo. A reportagem teve grande repercussão na cidade de São Paulo e Carolina se tornou o assunto mais comentado naquele momento.

A festa de lançamento do livro foi um sucesso: mais de 10 mil pessoas compareceram para a noite de autógrafos. Saíram novas reportagens em jornais, na TV e em rádios, dando a Carolina projeção nacional no meio literário. Seu livro “Quarto de despejo” foi publicado em mais de 46 países, ganhou visibilidade internacional e ela até  desfilou em carro aberto com o presidente do Uruguai, naquele país. Com o sucesso, Carolina ganhou dinheiro, comprou um sítio no interior de São Paulo e morou lá até o último dia de sua vida. Faleceu aos 63 anos de idade.

Livros publicados: Quarto de despejo (mais famoso), Casa de alvenaria, Pedaços da fome, Provérbios, dentre outros. Após sua morte, foi publicado Diário de Bitita, em que a autora conta memórias da sua infância. À frente de seu tempo, Carolina Maria de Jesus tornou-se exemplo de resistência e perseverança. Assumiu o seu lugar de fala e fez sua voz ganhar o mundo.

*Pesquisa sobre autora realizada pela equipe da biblioteca do Vieira.

Fotos: Secom/CAV, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Estadão Conteúdo e Folhapress.  

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